zorro no cavalo

Quando fiz o MBA na Dom Cabral, estava bastante cético em relação à disciplina de gestão de pessoas. Questionava muito a aplicação prática em minha vida profissional. Entretanto tive o melhor módulo de todo o curso, com um excelente professor, o Pedro Mandelli, que também é um reconhecido consultor na área. Desde então, interesso-me muito pelo assunto de gestão de pessoas, motivação e comportamento humano.

Dentre muitos outros assuntos, o Mandelli trata do estilo heroico de liderança. Ele compara o líder heroico com o Zorro, aquele mascarado de chapelão do seriado dos anos 70 que eu acabava vendo na TV quando eu era criança, enquanto o Batman não começava.

Quando há algum problema na cidade, o Zorro aparece todo elegante e seguro de si, com sua capa, chapéu e espada, montado no glorioso cavalo Silver. Ele sempre sabe exatamente o que fazer, enfrenta os vilões, encara lutas de espada, e deixa a sua marca “Z” sempre que finaliza sua missão.

Enquanto isso, seu fiel ajudante é o Tonto, que não dá pitaco nenhum e dá uma ajudinha uma vez ou outra. A população é pacata, ignorante, e venera o Zorrão. A população é espectadora da situação, torcendo para que tudo seja resolvido, e ao final é muito agradecida ao herói. Mas não ajuda, não sai do lugar e não tem grandes aspirações. E sabe que quando aparecer o próximo problema o Zorro vem resolver.

O gestor heróico age como o Zorro. Normalmente é o gestor que se destacou na área técnica, e tem um grande domínio técnico do assunto. Ele é centralizador, assume o problema e define o que será feito. A equipe é essencialmente operacional e não tem responsabilidade sobre as decisões. E consequentemente não assume riscos.

Na minha experiência, observo que um dos maiores componentes da motivação no trabalho é compartilhar a responsabilidade na tomada de decisão. Fica fácil quando o chefe decide tudo. Se der errado a culpa é toda do chefe. Quando a decisão é compartilhada, a equipe se torna responsável por fazer acontecer, pois participou da decisão. E tem muito mais comprometimento. Se esforçará mais quando enfrentar algum percalço no meio do caminho. Além do mais, a equipe tem um desenvolvimento profissional muito mais acentuado, pois precisa assumir os problemas, estudar e aprender com os erros e sucessos.

Obviamente existem situações em que o gestor deve assumir a decisão e seguir em frente. São as situações urgentes que exigem uma rápida ação. Nesses casos, normalmente não há tempo para discussão e o melhor a fazer é centralizar a decisão para não comprometer o negócio. Situações de impasse também necessitam da palavra final do líder, para que haja convergência.

Outro ponto a se destacar é que a liderança participativa não é um processo de votação. O bom líder não transforma sua gestão em votação e não decide a partir da contagem dos votos. Mas dá oportunidade à equipe de participar e contribuir no processo decisório.

Se o gestor não acredita que o estilo participativo funciona e que tem que assumir as responsabilidades porque a equipe não dá conta, precisa refletir. Provavelmente não confia no time. Primeiro precisa avaliar se está com a equipe certa, se os membros da equipe possuem a competência necessária para assumir essa responsabilidade. E nesses casos, pode ser necessário treinamento ou mesmo trazer gente do mercado que tenha a expertise para a função. Mas pode ser que o gestor não tenha desafiado a equipe o suficiente. Ele pode ter receio de perder poder. Pode ter medo de que  as coisas não sejam feitas do jeito que ele faria. E certamente não serão, cada um tem sua forma de pensar e seu jeito de fazer as coisas. E muitas vezes o resultado final pode ser melhor.


4 comentários

Marcelo Baltar · abril 29, 2013 às 5:14 pm

Tive uma experiência similar a sua no meu MBA do Ibmec, Leandro. A disciplina de Gestão de Pessoas tornou-se uma das minhas preferidas e a única que devorei o livro de cabo a rabo. Uma pena que não posso elogiar tanto a minha ilustre professora, que deixou a tarefa de dar aula mais para os alunos do que para ela própria.

Sobre o gestor não participativo, ou que não delega e não desafia adequadamente sua equipe, além de tudo o que você comentou, acrescento ainda outro malefício: a miopia de não perceber que o desenvolvimento de seu time é o caminho para o seu próprio desenvolvimento e validação como bom líder. Empresas com avaliações de desempenho um pouco mais estruturadas já cobram isso de seus gestores, e a formação de sucessores é essencial para isto.

    leandropessoabr · abril 29, 2013 às 6:02 pm

    Isso mesmo, Marcelo. Muitas empresas ainda não têm esse nível de maturidade e valorizam o líder heroico. Não sabem o que estão deixando na mesa! Obrigado pela contribuição!

Pedro Martins · abril 30, 2013 às 1:58 am

Leandro,

Muito bom este material. Na empresa na qual trabalho sou multiplicador de um curso chamado “The Leader’s Window” que trata, dentre outras coisas, deste tema. Reconheci imediatamente o Líder Heroico como um dos arquétipos do mundo empresarial no qual no referimos neste curso.

É importante seu comentário que nem todas as situações permitem uma participação ativa ou democrática da equipe. Entretanto, o líder que não treinar seu grupo de liderados a dividir a responsabilidade pelas soluções nunca poderá delegar tarefas com confiança e responsabilidade. Neste caso ele acaba se tornando outro tipo terrível de líder, que é aquele que entrega tarefas para a equipe sem preparo algum, apenas pela falta de tempo ou interesse. Declara que está delegando, mas na verdade está apenas abandonando sua equipe.

Grande abraço meu amigo

    leandropessoabr · abril 30, 2013 às 8:08 pm

    Obrigado, Pedro! Também considero esse tema de extrema importância, basta ver a quantidade de pessoas de talento no mercado de trabalho que estão desmotivadas pela falta de oportunidade de mostrar seu potencial. Grande abraço!

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